18 de outubro de 2010

A certeza com ares de incerteza!



por João A. de Souza Filho

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8.28).

Precisamos admitir que é muito difícil acreditar na afirmativa de Paulo de que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus - parece até um contra-senso teológico - que coisas ruins e detestáveis têm sua contribuição positiva. Afinal, encontramos nas Escrituras uma linha de raciocínio teológica de que Deus sempre nos guarda, protege e livra-nos do mal. Como crer que o próprio mal contribua para o bem? E o que fazer com todos aqueles versículos da caixinha de promessas?

No dia a dia do aconselhamento pastoral somos desafiados a crer nessa verdade, do contrário, como levar as pessoas a entenderem que o mal que lhes sobreveio tem um propósito que contribuirá para seu bem? No entanto, as pessoas têm muita dificuldade de se apoderar dessa verdade bíblica, o que dá margens para o surgimento de um certo rancor contra Deus. A morte de um membro da família, o nascimento de uma pessoa com uma síndrome qualquer; uma deficiência física depois de um desastre, etc. nunca conseguem ser entendidas como um mal que vem para o bem! Será que nesse versículo está a origem da expressão popular, "há males que vêm para o bem"? Como fica a querida irmã cujo marido está há oito anos entrevado, em coma, tendo que ser cuidado dia e noite?

E sempre que procuro uma explicação nas notas de rodapé das Bíblias que possuo - e creio que possuo um bom acervo dessas Bíblias - parece-me que alguns evitam comentar a expressão, todas as coisas cooperam para o bem. Mas dois deles - Mathew Henry e Albert Barnes - não fogem à responsabilidade. São minuciosos em seus comentários. A esse respeito, diz Barnes: Todas as coisas trarão a sua contribuição e mutuamente contribuirão para o nosso bem. Afastam de nós o apego pelas coisas do mundo; ensinam-nos a verdade sobre as condições de vida, sua transitoriedade e fragilidade. Levam-nos a colocar nossos olhos em Deus em busca de socorro, e a anelar o céu como nossa última morada. Produzem em nós um espírito submisso, humildade, paciência e disposição para ajudarmos os outros em amor. Essa tem sido a experiência de todos os santos, e no fim da vida podem dizer que foi bom passar por aflições. "Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos" (Sl 119.71). "Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto da justiça" (Hb 12.11).

Todas as coisas contribuem para o nosso bem-estar. Contribuem para a promoção da verdadeira piedade, paz e felicidade em nossos corações.
Mathew Henry, teólogo que sabia, como poucos, extrair do texto bíblico uma lição, um devocional, afirma que as providências de Deus são como os vários ingredientes de um remédio feito para curar. São ruins, intragáveis, mas necessários para a cura física. Assim também as dificuldades. As tribulações são, muitas vezes, um "santo remédio" para nos aproximar de Deus, levar-nos ao arrependimento, à mudança de vida, etc.

As coisas ruins que nos acontecem marcam profundamente nossas vidas, redirecionam nosso estilo de viver, fazem-nos refletir sobre o bem e o mal e, como no caso do sofrimento abrem a fresta que descortina diante de nós a misericórdia de Deus.

É evidente que a pessoa que não tem uma experiência de amizade e companheirismo com Deus jamais entenderá esse versículo - eis porque no gabinete pastoral muitos dos que nos procuram e que não conhecem a Deus também não admitem ou não conseguem entender essa verdade! O crente, no entanto vê todas as coisas por um ângulo divino, de tratamento pessoal de Deus para com ele. Quando se lê o que os místicos escreveram sobre o tema- João da Cruz, Evelyn Underhill, Teresa de Jesus, Madame Guyon, além de pessoas como Oswald Chambers, Stanley Jones, W. Nee, nota-se que essas pessoas tinham uma perspectiva positiva do sofrimento e das coisas ruins que lhes aconteciam; viam em tudo a boa mão de Deus operando no processo da transformação, do quebrantamento e da santificação. 

Nada resta ao crente fiel senão confiar em Deus que está no controle de toda situação! O crente não precisa buscar o sofrimento, nem lutas ou situações de risco; tudo vem de forma natural! Tem que buscar, isso sim, a amizade e um bom relacionamento com Deus! Afinal, ele controla nossas vidas e dirige nossos passos melhor que nossos amigos!

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João de Souza é pastor com vários anos de experiência ministerial

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